Quero compartilhar com você um pouco do que aprendi com a cirurgia plástica e a minha experiência com os Médicos Sem Fronteiras.

Um dia desses, um paciente me perguntou ao final de uma consulta, olhando para o prêmio O Globo “Faz a Diferença” em cima da mesa: “Dr. Alexandre, o senhor é especialista em cirurgia plástica, mas ganhou esse prêmio por missões humanitárias. Não combina muito não é”?

Boa pergunta – pensei comigo. E de imediato me veio à cabeça um trecho do famoso discurso do Steve Jobs para os formandos de Stanford:

“Você não consegue ligar os pontos olhando pra frente; você só consegue ligá-los olhando pra trás. Então você tem que confiar que os pontos se ligarão algum dia no futuro. Você tem que confiar em algo – seu instinto, destino, vida, carma, o que for. Esta abordagem nunca me desapontou, e fez toda diferença na minha vida”.

Era minha última consulta do dia. O paciente continuava me olhando, esperando pela resposta, enquanto uma retrospectiva de vida passava pela minha cabeça.

– Você tem alguns minutos? – Perguntei para ele.

– Claro – Ele respondeu, meio surpreso.

Então vou te contar um pouco da minha história com a cirurgia plástica e com os Médicos Sem Fronteiras, e no final acho que você vai concordar que elas combinam sim, e muito!

Tudo começou em 1992, quando entrei na faculdade de medicina. Eu já tinha uma inclinação para a cirurgia plástica, e nomes como o do Dr. Ivo Pitanguy, famoso internacionalmente e que formou uma geração de cirurgiões gabaritados, me inspiravam.

E quando eu estava no terceiro ano da faculdade, li uma matéria sobre a ONG Médicos Sem Fronteiras e o trabalho incrível de seus voluntários ao redor do mundo. De imediato, tive a certeza de que um dia iria trabalhar com eles.

E foi o que aconteceu. Exatamente 10 anos depois de eu ter lido aquela matéria na faculdade, eu estava dentro de um avião para a minha primeira missão com os Médicos Sem Fronteiras.

Ao todo foram seis missões na África e três na Ásia. Na África, as missões estavam sempre ligadas à guerra e à miséria.

O tsunami de 26 de dezembro de 2004 foi a primeira catástrofe natural em que atuei, mas ela ocorreu quando eu estava de plantão na Costa do Marfim. Na verdade, fui para lá meses depois.

Antes trabalhei na Libéria, retornei ao Brasil e só depois fui para a Indonésia. Logo após esse período, fui para a Caxemira, em outubro de 2005. Lá socorri feridos de um terremoto. Praticamente emendei uma missão na outra.

E claro que as condições de vida nesses lugares é bem diferente do conceito de glamour e estética a que a maior parte das pessoas associa quando ouve falar de cirurgia plástica. Eu contraí malária 3 vezes durante o período com os Médicos Sem Fronteiras.

Lá, a população não tem ideia de quando vai comer ou se vai comer; não se usa sapato; a água é poluída. Então, tudo é muito precário mesmo. E eu queria resolver, participar de alguma forma.

Em alguns momentos é desesperador. Você sabe que não vai conseguir salvar todo mundo, mas está fazendo a sua parte, ajudando os outros.

Se alguém tivesse uma queimadura, ou tivesse levado um tiro, nós poderíamos tratar. Não tinha essa de “vamos te encaminhar para um exame” ou para algum lugar. Aqui no Brasil eu demoraria um ano para operar o que operei lá em um mês.

E, de alguma forma quando eu olho para trás e ligo os pontos, eu vejo que tudo o que eu passei me fez um cirurgião plástico melhor. Você volta com os sentidos mais aguçados, e mais motivado para desenvolver um bom relacionamento médico-paciente.

Volta também mais atento ao que está acontecendo, seja em termos de política, geopolítica ou antropologia.

Mas falando em relacionamento médico-paciente, me desculpe, acho que acabei tomando muito do seu tempo – eu disse ao paciente, meio sem jeito.

– Que nada Dr. Alexandre, adorei a conversa, e o senhor me convenceu. Eu gostaria também de fazer algo que fizesse a diferença para o mundo. Mas para vocês médicos é mais fácil. Como que eu, que trabalho com design, poderia fazer algo assim?

– Aulas de caligrafia – respondi.

– Oi? – Ele me olhava mais uma vez surpreso.

As aulas não obrigatórias de caligrafia que Steve Jobs assistiu, pouco antes de largar a universidade, serviram de inspiração para o lançamento  do Macintosh 10 anos depois. O Mac foi o primeiro computador com tipografia bonita, e o resto da história você já sabe.

É isso que ele dizia com o lance de ligar os pontos. Faça tudo aquilo que te interessa e motiva, mesmo que não pareça fazer algum sentido nesse momento. Confie, e no futuro, quando você olhar para trás, vai perceber que tudo estava ligado, como mágica.

Espero que você também tenha gostado de ler um pouco sobre a minha história, e obrigado pelo seu tempo.

Um grande abraço,

Dr. Alexandre Charão

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *